A Direita que não é Direita

A Direita que não é Direita

Durante décadas, fomos bombardeados com a ideia de que os grandes horrores do século XX foram obra da “extrema-direita”. Hitler, Mussolini, Franco – todos empilhados no mesmo saco ideológico, rotulados como os herdeiros naturais do conservadorismo europeu. Mas esta leitura está fundamentalmente errada. Esses regimes não são representantes da direita tradicional, mas apenas versões concorrentes da mesma febre revolucionária que também gerou Lenine, Estaline e Mao.

O rótulo de “direita” colado ao fascismo é uma construção e, mais do que um erro, é uma manobra política. É o truque de ilusionismo perfeito: atribuir os crimes do radicalismo moderno ao campo político que sempre os combateu.

A verdadeira direita – a clássica, a séria – nasce da consciência dos limites. Burke, o pai do conservadorismo moderno, escreveu em 1790 uma das críticas mais certeiras à Revolução Francesa, avisando que um Estado que tenta reinventar tudo a partir do zero acaba por destruir a civilização. A sua direita é feita de prudência, de respeito pelas tradições, pelas hierarquias naturais, pela religião, pela moral herdada. Ela defende a liberdade com responsabilidade, a autoridade com limites, e a desigualdade como facto natural da vida social, não como uma falha a ser corrigida à força por burocratas iluminados. Nada disto tem a ver com o fascismo.

Mussolini era socialista. Foi editor do Avanti!, o jornal do Partido Socialista Italiano. Quando fundou o fascismo, trocou a retórica proletária por uma nacionalista, mas manteve a ideia base: a sociedade precisa de ser remodelada de cima para baixo, por meio de um Estado forte, centralizado e ideologicamente mobilizador. Hitler fez o mesmo, substituindo a luta de classes pela luta racial, mas mantendo a fé cega na engenharia social e no poder absoluto. Ambos construíram governos totalitários, não para preservar tradições, mas para inventar mitos novos. A “raça pura” ou o “Estado corporativo” eram invenções modernas, substitutos seculares da religião e da cultura tradicionais. A autoridade no fascismo e no nazismo já não vinha da tradição ou da lei natural, mas do Partido, do Líder, da Ideologia. Exatamente como no comunismo.

Há aqui uma ruptura decisiva que poucos querem ver: o conservadorismo tradicional e o totalitarismo moderno não são variações da mesma direita – são inimigos mortais. O primeiro quer limitar o poder; o segundo quer concentrá-lo. O primeiro respeita o que é herdado; o segundo quer apagar o passado e impor um futuro utópico. O primeiro acredita que o ser humano tem falhas que precisam ser domadas; o segundo acha que a natureza humana pode ser reprogramada.

Direita verdadeira não é sinónimo de autoritarismo, tal como esquerda verdadeira não é sinónimo de liberdade. A equação fascismo = direita é uma fraude intelectual. E persistir nela é continuar a proteger a verdadeira raiz do problema: a obsessão moderna por reinventar o mundo com base em ideologias, e não em realidades humanas.

Se queremos recuperar o bom senso, temos de recuperar a linguagem. Chega de chamar direita, chega de chamar conservadorismo a uma facção do movimento revolucionário. O conservadorismo é, por definição, anti-revolucionário.

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