Faz sentido celebrar o Dia da Mulher?

Faz sentido celebrar o Dia da Mulher?

Todos os anos, a 8 de março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. A data foi institucionalizada pelas Nações Unidas em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher. As suas origens políticas remontam ao início do século XX, quando a ativista socialista Clara Zetkin propôs, no Congresso Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhaga (1910), a criação de um dia dedicado à mobilização política feminina.

Cartaz desenhado por Karl Maria Stadler em Munique para o movimento socialista alemão.

À primeira vista, a ideia parece simples e positiva: reconhecer a importância das mulheres na sociedade. No entanto, uma análise mais atenta levanta uma questão filosófica relevante: o que exatamente está a ser celebrado nesse dia?

Existe uma diferença fundamental entre celebrar pessoas concretas e celebrar categorias abstratas.

Durante grande parte da história humana, as sociedades celebravam sobretudo indivíduos exemplares. As festas, os monumentos e as memórias coletivas eram dedicados a pessoas cujas vidas manifestavam virtudes dignas de imitação.

Por exemplo, a tradição cristã honra figuras como Maria de Nazaré, não porque represente uma categoria sociológica chamada “mulher”, mas porque a sua vida foi considerada modelo de humildade, coragem e fidelidade. O mesmo acontece com inúmeras mulheres da história — santas, cientistas, governantes, educadoras, mães — cuja grandeza se revela em ações concretas.

Neste modelo, a honra pública está ligada à virtude pessoal. Porém, a modernidade introduziu gradualmente outra lógica.

A partir do século XIX, sobretudo sob a influência de interpretações históricas inspiradas por pensadores como Karl Marx, a história passou muitas vezes a ser interpretada como conflito entre grupos sociais. A atenção deslocou-se dos indivíduos para categorias coletivas: classes, raças, identidades culturais ou de género.

Nesse enquadramento, a celebração pública deixa de centrar-se em exemplos de vida e passa a celebrar identidades coletivas.

O Dia da Mulher encaixa nesta lógica. O objeto da celebração não é uma pessoa concreta cuja vida possa ser conhecida e admirada. O que se celebra é “a mulher” enquanto categoria social ou política. 

Esta mudança pode parecer subtil, mas tem consequências importantes.

Quando celebramos pessoas concretas, a celebração aponta para um modelo moral. A vida dessa pessoa inspira imitação e mostra que certas virtudes — coragem, inteligência, fidelidade, generosidade — são possíveis e desejáveis.

Quando celebramos uma categoria abstrata, a lógica é diferente. Não se celebra uma vida exemplar, mas uma identidade coletiva. O foco deixa de estar no que alguém fez ou no tipo de vida que levou, e passa simplesmente a estar no facto de pertencer a um determinado grupo.

Este fenómeno tornou-se comum nas sociedades modernas, especialmente após as transformações culturais iniciadas pela Revolução Francesa (1789). Numa tentativa de tirar centralidade aos calendários religiosos, surgiram novas datas cívicas destinadas a celebrar valores ou identidades sociais.

Essas datas funcionam muitas vezes como uma espécie de liturgia política secular: rituais simbólicos que reafirmam determinadas narrativas sobre a sociedade.

Mas há ainda uma dificuldade adicional no contexto contemporâneo.

A própria categoria “mulher” tornou-se objeto de debate e redefinição. Nas últimas décadas, muitas instituições passaram a adotar distinções entre sexo biológico e identidade de género, culminando na recomendação aprovada pelo Parlamento Europeu de que as mulheres trans devem ser vistas como mulheres.

Como consequência, em vários contextos institucionais e legais, a categoria “mulher” pode incluir pessoas biologicamente masculinas que se identificam como mulheres.

Isto cria uma ambiguidade conceptual evidente: o que exatamente está a ser celebrado no Dia da Mulher?

Se “mulher” é entendida como realidade biológica e metafísica, refere-se a metade da humanidade definida pela diferença sexual.

Se “mulher” é entendida como mera palavra classificatória - o que remonta ao nominalismo medieval - a categoria torna-se aberta e variável.

Quando uma categoria celebrada publicamente não possui uma definição clara, o próprio sentido da celebração torna-se incerto.

Tudo isto conduz a uma pergunta mais profunda.

Talvez uma sociedade honre verdadeiramente as mulheres não quando celebra uma categoria abstrata num dia do calendário, mas quando reconhece, estuda e transmite as histórias de mulheres concretas cujas vidas manifestaram grandeza humana.

Celebrar pessoas concretas educa a consciência moral. Celebrar categorias abstratas reforça identidades coletivas. A diferença entre estas duas formas de celebração é decisiva. Por isso, a pergunta inicial permanece legítima:

faz sentido celebrar o Dia da Mulher — ou faria mais sentido lembrar e honrar mulheres concretas cuja vida revela aquilo que a dignidade humana pode ser?

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1 comentário

Gosto muito de como vê as coisas e de como a explicita.
Obrigada.

Maria Sancho

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