Modelando o Mundo: Narrativa, Rede e Antecipação Estratégica

Modelando o Mundo: Narrativa, Rede e Antecipação Estratégica

Feliciano Vasa Ferreira

Quando se fala de como agendas globais são moldadas, a maior parte das pessoas imagina salas escuras e conspirações de filme. A realidade é mais simples, e por isso mesmo mais poderosa. Existem circuitos. E esses circuitos são visíveis e até previsíveis. 

O que acontece entre plataformas como o Project Syndicate, a revista Foreign Affairs do Council of Foreign Relations e o Forúm Económico Mundial (FEM), não é uma conspiração formal. É algo mais subtil: é ecossistema. 

Primeiro surge a ideia. Não como decreto, mas como ensaio. Um economista escreve no Project Syndicate a defender uma nova arquitetura financeira internacional, ou um imposto global mínimo, ou a necessidade de regular a inteligência artificial à escala planetária. Parece apenas opinião qualificada. Mas ali está o embrião. É ali que a narrativa é testada, afinada, legitimada intelectualmente para ser adaptada. 

Depois, a mesma linha de pensamento aparece num registo mais estratégico. Em Foreign Affairs já não é ensaio académico; passa a doutrina. Fala-se de segurança nacional, de contenção da China, de reorganização das cadeias de produção, de alianças tecnológicas. O que antes era argumento passa a enquadramento geopolítico. Aqui já não se discute se deve acontecer, discute-se como e em que ritmo.

Por fim, no FEM, a ideia ganha operacionalização. Deixa de ser texto e passa a ser grupo de trabalho, relatório executivo, parceria público-privada, um mapa até 2030. CEOs, ministros e bancos centrais sentam-se à mesma mesa. O que era conceito torna-se compromisso. 

Não há necessidade de telefonemas secretos quando existe circulação permanente das mesmas pessoas entre estas plataformas. Os autores cruzam-se. Os convidados repetem-se. Os patrocinadores orbitam o mesmo espaço. É um circuito fechado de validação: ideia, doutrina, implementação, numa lógica de win-win.

E aqui entra a ponte com aquilo que figuras como Jeffrey Epstein e o seu círculo discutiam nos bastidores, não no sentido sensacionalista, mas na lógica de rede. A influência moderna não se exerce apenas pelo poder formal; exerce-se através de proximidade, financiamento, acesso e reputação condicionada, como se percebe dos ficheiros libertados. Quem controla os espaços onde as ideias circulam controla o horizonte do que é considerado “possível”. O resto torna-se impensável.

Se olharmos atentamente, vemos que o padrão de repete nos últimos anos:

  • Reorganização da globalização - não o seu fim, mas a sua regionalização controlada;
  • Digitalização profunda da economia com identidade digital e moedas de banco central.
  • Transição energética como nova arquitetura de poder financeiro.
  • Segurança híbrida permanente, com fronteiras cada vez mais tecnológicas.

Reparem como as expressões aparecem primeiro como reflexão, depois como inevitabilidade, e finalmente como política pública.

A questão séria não é se isto é bom ou mau. É perceber que existe um método. Como pode um cidadão comum antecipar o que vem no horizonte? Vamos por fases:

Primeiro, ler estes fóruns como quem lê mapas meteorológicos. Quando uma ideia começa a repetir-se em artigos de opinião internacionais, (o tal padrão que desperta a atenção), ainda está em fase experimental. Quando surge em revistas estratégicas ligadas a policy makers, está a ganhar massa crítica. Quando aparece em relatórios com metas e datas concretas, preparem-se: a execução está próxima.

Segundo, observar palavras-chave. “Resiliência”, “governação digital”, “parcerias público-privadas”, “arquitetura financeira inclusiva”, “transição justa”. O vocabulário antecipa a legislação, sempre com palavrões aceitáveis, inclusivos.

Terceiro, seguir pessoas, não apenas instituições. Se o mesmo nome escreve, aconselha governos e participa em fóruns económicos, é porque está dentro do núcleo de circulação de poder.

Quarto, perceber o que não está a ser discutido. Ideias ausentes dizem tanto como ideias presentes. Bato nesta tecla: o que não está na sala que devia lá estar e não vemos. Se determinados modelos económicos ou visões civilizacionais nunca entram no debate destas plataformas, isso revela os limites do campo aceitável, revela o que se quer afastado da narrativa. Por exemplo, o facto da estrutura europeia ser semelhante à estrutura soviética de governação. 

Nada disto implica fatalismo. Implica lucidez. O poder contemporâneo raramente impõe; normaliza. Não força; enquadra. Não anuncia revoluções; apresenta inevitabilidades técnicas. Tudo isto é enquadrado numa linguagem de sedução e cuidado. 

Quem aprende a ler o processo deixa de ser surpreendido. E quando deixa de ser surpreendido já não reage, antecipa. A diferença entre estar dentro ou fora do jogo começa nesta antecipação que, na lógica da arte da guerra de Sun Tzu, é a forma mais elevada de poder.

Sun Tzu não fala de força bruta como primeiro recurso. Fala de cálculo, de leitura de terreno, de conhecimento prévio das variáveis. “Vencer sem combater” não é poesia; é método. Significa desarmar o adversário antes de ele perceber que entrou num confronto. Significa moldar o ambiente de tal modo que a resistência se torne inútil ou tardia.

A antecipação completa implica três movimentos:

Primeiro, conhecer o terreno, não apenas o visível, mas as forças invisíveis: interesses, alianças, fragilidades internas. As tais condições e variáveis como ventos, fluxos de água, etc.. Quem só observa acontecimentos já está atrasado; quem observa tendências está um passo à frente.

Segundo, conhecer o outro melhor do que ele próprio se conhece. Sun Tzu insiste: se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas. No mundo atual, isso traduz-se em perceber agendas, ciclos económicos, necessidades energéticas, pressões demográficas, entre outros elementos. Estados e corporações agem dentro dessas limitações. Quem as lê, antecipa decisões.

Terceiro, agir antes do confronto se materializar. A guerra ideal, para Sun Tzu, é aquela que se resolve na disposição das forças, não no choque. Aplicado à política global: quando uma diretiva se torna lei, o jogo já foi jogado. A verdadeira disputa ocorreu na fase de narrativa, de formulação, de enquadramento técnico. Quantos políticos perdem esta oportunidade, no espaço da discussão e das ideias. Por exemplo, a Europa atrasou-se em relação às negociações de paz. Se tivesse antecipado "controlaria" a narrativa, no meu ponto de vista. 

Antecipar não é adivinhar o futuro. É reduzir a margem de surpresa até quase zero. Estar fora do jogo é reagir a factos consumados. Estar dentro é reconhecer o padrão quando ele ainda é apenas intenção. É isso que separa quem comenta a história de quem a molda.

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